sexta-feira, 13 de novembro de 2009

o risco do jogo


I

A política é o campo dos paradoxos. Dos olhos nos olhos e da palavra responsável ao vento. A política eficaz visa o equilíbrio. Entre forma e conteúdo. Entre ação e reflexão. Entre as partes tensionadas. Ela visa o equilíbrio, porém ela nunca o atinge. A política é atrito entre partes em conflito. Democrático. Performático. Conflitos de interesses, ajustes de expectativas alheias sobre o movimento do mundo. A política é o sumo dos dias na casa e na rua, da câmara até a cama.

O trabalho coletivo é político porque agrega partes distintas, falas distintas, olhares distintos. Sem centros. Sem donos. Sem rancores. Coletivo.

O coletivo é oportunidade. Um Compromisso Estético Coletivo é a oportunidade de deixar marcas para a posteridade na sua arte. Políticas do agora visando o futuro, política urgentes e subjetivas sem sentido neste momento, mas fundamentais e universais amanhã. Políticas do sensível entre as classes.

Vale sempre lembrar que a luta de classes não é uma invenção de livros escritos pelo revolucionário alemão na biblioteca de Londres. A luta de classes é sim a roda da história, o sal da terra, é a máquina do mundo, é o arco e a flecha, saber e poder. A luta de classes é uma expressão e é pressão cotidiana na hierarquia dos homens. A luta de classes é o que faz com que cada um assuma seu papel no teatro.

Mas as classes não são estáticas, são também estéticas. Não são meramente econômicas ou políticas, não estão apenas nos sindicatos ou associações, não pertencem apenas ao mundo da ciência política ou da sociologia. As classes são promíscuas culturalmente, são porosas nos preconceitos, são produtivas na elaboração da narrativa do seu conflito. As classes são alucinadas, são assassinas, são doutrinárias, são musicais, cinematográficas, literárias, telúricas. Cada um de nós faz sua política sendo e deixando de ser classe o tempo inteiro. Ação e estrutura / momento e história / individuo e sociedade / afeto e razão / estabelecidos e outsiders = papéis em movimento, signos em rotação, máscaras estratégicas do ego, platôs intermináveis da existência. Para cada um, uma política específica. Para cada um, uma velocidade específica?

II

O indivíduo político é aquele que anda pelas ruas das cidades contemporâneas e percebe que todos os dias, todos os dias, vemos milhares – milhares – de pessoas que nunca mais veremos de novo. Nunca mais mesmo. O indivíduo político é o que percebe que a MASSA é trágica, mágica e feroz, porém solitária. Completamente solitária. O indivíduo político é aquele que negocia seu ódio no ônibus, seu respeito nos trâmites emocionais, seu empenho na profissão. Que não abre mão de EXPERIMENTAR A VIDA EM TODO SEU MISTÉRIO E VAZIO PARA OCUPÁ-LA COM SEU AFETO PELO MUNDO.

O indivíduo político participa mesmo que apenas em sua cabeça. Ele observa. Filosofa. Deseja. Silencia. Silencia. Silencia. Silencia. Fala na hora certa. Absorve opiniões, pondera sentimentos, planeja, executa, colhe e agradece. Em suma, o indivíduo político é educado no trato e revoltado no peito.

III

O Arquivo não é apenas o espaço físico da guarda dos documentos e da memória. O Arquivo é a produção de sentido da sua história. Além disso, o arquivo é a garantia pessoal de que estivemos por aqui. O Arquivo é a trajetória, o erro e acerto, a gagueira da vida, o passo a passo rumo a lugar nenhum e a todos os lugares. O Arquivo é a garantia do fluxo devastador da experiência cotidiana. O Arquivo, enfim, é afeto.

Nas suas conversações, o filósofo que se jogou pela janela deixa de herança as marcas da ação frente à inércia filosófica do rame rame da vida:

"Pensar é sempre experimentar, não interpretar, mas experimentar, e a experimentação é sempre o atual, o nascente, o novo, o que está em vias de fazer.

Dizer sim ao RISCO DO NOVO ao contrário de dizer não e conservar a imobilidade segura e sem esperança na potência da ação humana na Terra. Experimentar o experimental. Para valer a pena. Para seguir levando. Para reaprender todos os dias porque os caminhos nos levam e eis que você em outra esfera, atmosfera, outra estréia. Politicamente desequilibrado e empenhado em conhecer o trabalho e os dias.

Velas abertas no mar, livre das âncoras, só não perde quem não tem. A política é o risco e não a vontade de domínio. É o amor pelo outro e não a aniquilação do outro. A política é a construção no dissenso e não a anulação da pluralidade. A política é a agregação para o bem e não a acumulação egoísta do mal. A política é ser livre para se reinventar em confronto com a feliz realidade que muitos insistem em negar: você não está sozinho no mundo e seus desejos não são mais importantes do que os desejos do outro.

A política é dar a todos o direito de respirar, sorrir e ter a serenidade de viver em paz dentre os homens.

sábado, 7 de novembro de 2009

Edital Cultura e Pensamento - Convocação


Sergio Cohn, editor da Azougue editorial e agitador full time manda avisar:
Caros,

Estou fazendo a gestão de um edital de revistas culturais para o Programa Cultura e Pensamento, do Ministério da Cultura, com financiamento da Petrobrás. É um edital interessantíssimo, fruto de mais de três anos de elaboração e trabalho. Nessa segunda-feira, dia 9 de novembro, será o lançamento do edital, num evento no Parque Lage, às 19 horas, com presença do Ministro Juca Ferreira e tudo. Terá uma mesa com Fred Coelho, Ana Luiza Nobre, Daniela Labra e Lucas Santtana discutindo arte urbana, e depois um coquetel. Estou reinvidicando a presença de todos amigos, é muito importante para mim celebrar junto essa nova aventura, e também prestigiar uma política cultural tão importante, que fomenta para o mapeamento e a reflexão da produção cultural contemporânea.

O edital trará um montante inédito para revistas de cultura, com a ideia de ser um celeiro para novas publicações. Serão quatro revistas contempladas, com periodicidade bimestral, e que serão distribuídas gratuitamente em universidades federais e centros culturais de todas as regiões do Brasil. Estou orgulhoso do projeto, que considero uma mudança de paradigma dentro dos incentivos às revistas culturais, que sempre foram muito baixos, sem permitir continuidade e fidelização de público. Esse edital muda isso, e foi inteiramente concebido para ajudar as revistas a se tornarem sustentáveis de forma independente, depois do primeiro ano de incentivo. O edital vai ao ar no dia seguinte ao evento, e ficará aberto a inscrições até o dia 15 de janeiro de 2010.

É muito importante que instituições, empresas e pessoas físicas pensem em projetos de revistas, para aproveitarmos essa chance rara para transformarmos e qualificarmos a mídia cultural no Brasil. Conto com vocês para prestigiarem o evento (quem está no Rio) e divulgarem o edital, para ser o mais amplo e democrático possível.

Grande abraço e vamos que vamos,

Como estão dizendo por aí, “a hora é essa”.


Sergio Cohn

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ouvindo o Imitador de vozes


“Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto por Nietzsche conseguiram estragar. Mesmo depois do acidente automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam nos caixões na igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia”.

Em um dos primeiros textos que publiquei aqui no blog, rabisquei algo sobre uma poética do ódio em alguns livros que estava lendo na época – Lugar Público, de Agrippino de Paula, Minima Moralia, de Adorno e Dois Irmãos, de Hatoun. O pequeno conto acima faz parte de um livro que, parodiando o título de Ferrez, pode servir como um pequeno manual do ódio. O livro é O Imitador de Vozes. O Autor é Thomas Bernhard. 105 histórias com no máximo uma página e meia. Pedradas certeiras que versam basicamente sobre o ódio, a morte (em 90% delas há algum tipo de morte, da tragédia histórica ao suicídio renitente), a loucura (hospícios e surtos por todo lado) e, sim, é possível, a ironia suprema.

Para os que vivem enfiados na lama da crítica literária que nos alimenta e nos oprime, Bernhard já é figurinha fácil. Dizem hoje que, ao lado de Sebald, Gombrowickz e outros escritores europeus dessa geração, Bernhard é uma influência escolar e unânime entre os escritores brasileiros. Tenho minhas dúvidas. Há de se ter estômago para o excesso de felicidade mórbida do escritor Austríaco, coisa bem distante do bundalelismo e do bufanismo brazuca. Escrever como esses caras é ter o estofo da dor, é ter o sabor de sangue alheio na boca, é viver isolado das minorias materiais do mundo – coisas que só um europeu que viveu a guerra ou o pós-guerra sabe de cor.

Bernhard escreveu O Imitador de Vozes em 1978. Os pequenos contos são geralmente narrados em primeira pessoa, o que deixa tudo mais insólito pela frieza na descrição das atrocidades e abandonos. Livro cinza, da cor de seus climas, da cor do céu de seus cenários: pequenas cidades austríacas, suíças, alemães, polonesas, perdidas nos vales gelados, abandonadas pela modernidade industrial, onde seus picos nevados, sua solidão e sua dureza germânica transformam homens em assassinos tranqüilos, justificados, plácidos até. Estados déspotas, prefeitos sórdidos, presidentes golpistas, filósofos frustrados, intelectuais inúteis, cientistas cegos de razão. Esses são os personagens do livro que se lê rápido, em frases musicais que engendram o leitor atônito em uma escalada de violência e, se tiveres olhos livres, humor. Como em “Espeleólogos”:

“Nào faz muito tempo, os chamados espeleólogos, que dedicam sua vida a estudar cavernas e com freqüência despertam o maior interesse sobretudo entre os leitores das revistas ilustradas que habitam as grandes cidades, puseram-se a estudar também a caverna localizada entre Taxenbach e Schwarzach, que, segundo lemos no jornal, jamais fora explorada. No final de agosto, e em condições climáticas ideais, como informa o Salzburger Volksblatt, os espeleólogos teriam entrado na caverna com o firme propósito de sair de lá até meados de setembro. Como, porém, já no final de setembro ainda não houvessem retornado da caverna, formou-se uma equipe de salvamento, que, sob o nome de Equipe de Salvamento dos Espeleólogos, lançou-se caverna adentro para ir em socorro daqueles espeleólogos que, originalmente, tinham entrado na caverna no final de agosto. Contudo, em meados de outubro, tampouco essa Equipe de Salvamento dos Espeleólogos retornara da caverna, o que motivou o governo estadual de Salzburgo a enviar uma segunda Equipe de Salvamento dos Espeleólogos para dentro da caverna. Essa segunda Equipe de Salvamento dos Espeleólogos compunha-se dos homens mais fortes e corajosos do estado, munidos dos mais modernos equipamentos de salvamento em caverna, como se diz. Exatamente como a primeira, essa segunda Equipe de Salvamento dos Espeleólogos de fato adentrou a caverna como planejado, mas ainda não havia saído de lá no começo de dezembro. Em conseqüência disso, o departamento responsável pela espeleologia do governo estadual de Salzburgo incumbiu uma construtora de Pongau de emparedar a caverna entre Taxenbach e Schwarzach, o que foi feito ainda antes do início do ano”.

Quem acompanha a obra de Bernhard, sabe que O Imitador de Vozes são cortes breves e secos dentro de uma longa trajetória literária de sucesso e obsessão. Ele é um escritor que mergulha o leitor em um universo de arrebatamento e fúria contra o Outro e contra si mesmo, contra o mundo de convenções inúteis, um mundo, repito, extremamente europeu, de um povo resignado em ser a base do surgimento de homens que aniquilaram o planeta com seu colonialismo devastador, seu racionalismo castrador, suas filosofias pretensiosas e suas guerras internas. Um povo cuja vida desprezível, para usarmos os termos de Bernhard, é o centro da cultura do mundo no século XX e a mola-mestra da destruição de corpos e mentes.

Mas para mostrar que nem tudo são cadáveres e hospícios para Bernhard, fecho com mais uma das histórias do Imitador de Vozes, essa cheia de humor. Ou melhor, do humor de Bernhard:

“Um assim chamado conjunto de música de câmara, famoso por tocar música antiga somente em instrumentos de época e também por um repertório que contempla apenas Rossini, Frescobaldi, Vivaldi e Pergolesi, apresentou-se num antigo castelo à beira do lago Atter e experimentou nessa ocasião o maior sucesso e sua carreira. Os aplausos só cessaram quando, bis após bis, já não lhes restava repertório a executar. Somente no dia seguinte revelaram aos músicos que eles haviam tocado numa instituição para surdos-mudos”.
Não percam O Imitador de vozes.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MAM Urgente - Políticas da Arte





Políticas da Arte – Diálogos da Arte
MAM-RJ – Dias 3 e 4 de novembro
Local: Cinemateca do MAM
Organização: MAM-RJ/Azougue Editorial
Coordenação: Frederico Coelho e Sergio Cohn

Outubro de 1968: Rogério Duarte e Hélio Oiticica organizam no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro o encontro batizado de Cultura e Loucura. Na montagem da mesa para o debate sobre os limites entre arte e contra cultura, além dos organizadores, participam Caetano Veloso, Nuno Veloso e Luis Carlos Saldanha. A idéia de Rogério e Hélio era ter também Chacrinha e Glauber Rocha, mas não foi possível. Tempos depois, Antonio Manuel lançaria um curta-metragem com os principais trechos do debate.

Outubro de 2009: o incêndio no acervo do Projeto HO desencadeia no meio das artes visuais uma série de documentos, textos pessoais, emails, cartas abertas, testemunhos e manifestos sobre a questão dos acervos de artistas e instituições. O debate gira maciçamente ao redor das condições de preservação e manutenção, das políticas públicas e privadas de financiamento, da repercussão pública do incêndio em contraponto ao descaso diário em relação a outros acervos importantes que se deterioram em nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, passa ao largo das mídias as propostas culturais que se encontravam em gestação em torno do Projeto HO, entre elas redes digitais de artistas e criação de espaços de disponibilização ao público das reservas técnicas dos artistas contemporâneos.

Se um encontro como o aqui proposto já se fazia necessário e urgente, ao constatarmos tal massa de opiniões no espaço virtual ou nas conversas privadas, agora se torna inadiável trazer o debate de volta ao espaço público.

Reivindicando a retomada do MAM-RJ como um espaço não só de exposição de obras, mas principalmente de exposição de ideais, questões, diálogos e conflitos, convocamos a todos os personagens do universo das artes visuais da cidade – artistas, críticos, jornalistas, galeristas, donos de acervos públicos e privados, compradores, produtores, público e pesquisadores – para participarem nos dias 3 e 4 de novembro do debate Políticas da Arte – Diálogos da Arte.

O objetivo do encontro é simples: romper com a idéia estática de um seminário acadêmico e estimular a participação pública na formulação de propostas para os problemas e soluções que todos podem trazer em suas colocações. A participação da platéia será tão ou mais importante do que a participação dos nomes nas mesas montadas para estimular o debate. O resultado do encontro será registrado e documentado num caderno de propostas, a ser publicado de maneira emergencial ainda esse ano pela Azougue Editorial.

Na terça-feira, dia 3, teremos duas mesas – uma na parte da manhã (11:00) e outra na parte da tarde(14:00) – com a participação dos coordenadores do evento (Frederico Coelho e Sergio Cohn) e de representantes de acervos (Cesar Oiticica Filho e João Vergara, com mediação da crítica Daniela Name). A intenção das duas mesas é fornecer mais elementos e informações para o debate com o público presente. Também será lançado nesse dia o projeto Rede Arte Brasil, uma rede digital de artes plásticas organizada pelo Projeto HO, com explicação pública de seus objetivos e metas.

Na quarta-feira, dia 4, a intenção é promover durante a tarde (das 14:00 às 18:00 horas) um balanço das conversas do dia anterior e uma convocatória geral para todos os interessados no debate sobre os temas propostos pelo encontro. Uma assembléia geral em que a participação de todos será fundamental para ampliarmos a capacidade de ressonância do evento. Os artistas e críticos Marcio Botner, Ernesto Neto, Felipe Scovino e o curador do MAM-RJ Luiz Camillo Osório, conduzirão o debate desse dia.

Políticas da Arte – Diálogos da Arte não é somente um encontro, não é somente um seminário e vai além do velho debate entre os mesmos. É uma convocação do MAM para que todos seus parceiros e colaboradores (seja o público e a sociedade, sejam os artistas e os que se relacionam com as artes) tenham novamente voz ativa na proposição e condução das políticas que atravessam o dia a dia das artes visuais contemporâneas.

Se no espaço virtual ficou provado nas últimas semanas que a demanda por conversas, por posições e por reivindicações é intensa, chegou a hora de nos encontrarmos face a face para refundarmos um novo marco crítico e um novo espaço de ação no Rio de Janeiro.

A hora é essa. Antes do próximo incêndio.
Esperamos a presença de todos,

Frederico Coelho e Sergio Cohn