
I
O trabalho coletivo é político porque agrega partes distintas, falas distintas, olhares distintos. Sem centros. Sem donos. Sem rancores. Coletivo.
O coletivo é oportunidade. Um Compromisso Estético Coletivo é a oportunidade de deixar marcas para a posteridade na sua arte. Políticas do agora visando o futuro, política urgentes e subjetivas sem sentido neste momento, mas fundamentais e universais amanhã. Políticas do sensível entre as classes.
Vale sempre lembrar que a luta de classes não é uma invenção de livros escritos pelo revolucionário alemão na biblioteca de Londres. A luta de classes é sim a roda da história, o sal da terra, é a máquina do mundo, é o arco e a flecha, saber e poder. A luta de classes é uma expressão e é pressão cotidiana na hierarquia dos homens. A luta de classes é o que faz com que cada um assuma seu papel no teatro.
Mas as classes não são estáticas, são também estéticas. Não são meramente econômicas ou políticas, não estão apenas nos sindicatos ou associações, não pertencem apenas ao mundo da ciência política ou da sociologia. As classes são promíscuas culturalmente, são porosas nos preconceitos, são produtivas na elaboração da narrativa do seu conflito. As classes são alucinadas, são assassinas, são doutrinárias, são musicais, cinematográficas, literárias, telúricas. Cada um de nós faz sua política sendo e deixando de ser classe o tempo inteiro. Ação e estrutura / momento e história / individuo e sociedade / afeto e razão / estabelecidos e outsiders = papéis em movimento, signos em rotação, máscaras estratégicas do ego, platôs intermináveis da existência. Para cada um, uma política específica. Para cada um, uma velocidade específica?
II
O indivíduo político é aquele que anda pelas ruas das cidades contemporâneas e percebe que todos os dias, todos os dias, vemos milhares – milhares – de pessoas que nunca mais veremos de novo. Nunca mais mesmo. O indivíduo político é o que percebe que a MASSA é trágica, mágica e feroz, porém solitária. Completamente solitária. O indivíduo político é aquele que negocia seu ódio no ônibus, seu respeito nos trâmites emocionais, seu empenho na profissão. Que não abre mão de EXPERIMENTAR A VIDA EM TODO SEU MISTÉRIO E VAZIO PARA OCUPÁ-LA COM SEU AFETO PELO MUNDO.
O indivíduo político participa mesmo que apenas em sua cabeça. Ele observa. Filosofa. Deseja. Silencia. Silencia. Silencia. Silencia. Fala na hora certa. Absorve opiniões, pondera sentimentos, planeja, executa, colhe e agradece. Em suma, o indivíduo político é educado no trato e revoltado no peito.
III
O Arquivo não é apenas o espaço físico da guarda dos documentos e da memória. O Arquivo é a produção de sentido da sua história. Além disso, o arquivo é a garantia pessoal de que estivemos por aqui. O Arquivo é a trajetória, o erro e acerto, a gagueira da vida, o passo a passo rumo a lugar nenhum e a todos os lugares. O Arquivo é a garantia do fluxo devastador da experiência cotidiana. O Arquivo, enfim, é afeto.
Nas suas conversações, o filósofo que se jogou pela janela deixa de herança as marcas da ação frente à inércia filosófica do rame rame da vida:
"Pensar é sempre experimentar, não interpretar, mas experimentar, e a experimentação é sempre o atual, o nascente, o novo, o que está em vias de fazer”.
Dizer sim ao RISCO DO NOVO ao contrário de dizer não e conservar a imobilidade segura e sem esperança na potência da ação humana na Terra. Experimentar o experimental. Para valer a pena. Para seguir levando. Para reaprender todos os dias porque os caminhos nos levam e eis que você em outra esfera, atmosfera, outra estréia. Politicamente desequilibrado e empenhado em conhecer o trabalho e os dias.
Velas abertas no mar, livre das âncoras, só não perde quem não tem. A política é o risco e não a vontade de domínio. É o amor pelo outro e não a aniquilação do outro. A política é a construção no dissenso e não a anulação da pluralidade. A política é a agregação para o bem e não a acumulação egoísta do mal. A política é ser livre para se reinventar em confronto com a feliz realidade que muitos insistem em negar: você não está sozinho no mundo e seus desejos não são mais importantes do que os desejos do outro.
A política é dar a todos o direito de respirar, sorrir e ter a serenidade de viver em paz dentre os homens.

